BOLSONARO ESPERAVA UMA DERROTA MAIOR NO PRIMEIRO TURNO, QUE NÃO OCORREU
BOLSONARO ESPERAVA UMA DERROTA MAIOR NO PRIMEIRO TURNO, QUE NÃO OCORREU.
Ele diz que vai se reeleger e destruir tudo que a Constituição de 1988 ainda segura. Bolsonaro é fruto da indistinção entre público e privado, que existia nos moldes de antes de 1970/80, tipicamente moderna. Essa indistinção veio com o neoliberalismo, a política geral que se estabeleceu para favorecer o novo padrão de acumulação do capital, exigido após o colapso da política do Welfare State. O neoliberalismo ajudou a criar a atomização, a precarização do emprego, o fim dos sindicatos e dos grupos formados pelo trabalho, a entrada da sociedade informatizada e do reinado do Big Data. Essa atomização a trouxe a pauta moral para o campo do discurso político, exatamente porque com a reorganização da sociedade neoliberal, a fronteira entre o público e o privado se rompeu (uma característica que, no campo cultural, chegou a ser chamada de pós-moderno).
Quando Steve Bannon percebeu isso, ele viu que a pauta conservadora poderia ser ampliada através da confusão induzida, aproveitando-se da indistinção entre público e privado. Era fácil colocar pautas privadas para o interior da esfera pública. "Vamos encher a imprensa com nossa merda". Essa frase dele passou a ser regra da tática da política da direita, e Bolsonaro a utilizou. Igrejas reacionárias vieram para o interior da política através dessa pauta, e trouxe então o pensamento anticiência e de desprezo do argumento racional, típico do senso comum da vida particular e privada, para a política.
Com a indistinção entre público e privado, esse novo sentido da política, cheia de opiniões particulares, voltou então ao mundo privado como sendo, agora, opinião política. A política de Bolsonaro (via Damares, por exemplo), passou a contar como verdadeira política. A pauta moral na política, refazendo a política, é o que há de principal para as guerras políticas serem guerras que atingem grupos de amigos e família. Os muros todos se quebraram: tudo é político, mas o político, agora, é tudo.
A esquerda, não raro, cai na armadilha neoliberal, insistindo no indentitarismo e temas correlatos, que força ainda mais as questões da pauta moral, antes privadas, se fazerem importantes na política. Lula tem tentado escapar disso. Mas a imprensa do PT, propagandística e pouco culta, não ajuda.
Claro que o grande capital financeiro não dá a mínima para tudo isso. Nesse caso, seus representantes, os empresários que passaram a idolatrar a financeirização, querem apenas que tudo permaneça como está, que o dinheiro flua para eles. Então, navegam conforme os ventos eleitorais. Para eles o importante é que o Banco Central seja independente, que o setor público diminua de modo a sobrar mais para eles, para abocanharem via privatização, exploração e espoliação.
Paulo Ghiraldelli
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